Para se entender melhor o contexto da visita do Presidente Ahmadinejad ao Brasil…, por Antônio Jorge Ramalho da Rocha
24/11/2009 Deixe um comentário
Poucas vezes, a visita de um Chefe de Estado ao Brasil provocou tanta celeuma nos últimos anos. Adiada por causa das controvérsias atinentes às recentes eleições presidenciais no Irã, esta visita se insere no marco do esforço iraniano para multiplicar seus parceiros internacionais, buscando ampliar mercados e reduzir seu isolamento político. Um esforço legítimo, que atende a parcelas progressistas de uma sociedade extremamente complexa, ainda profundamente ignorada no mundo ocidental, particularmente nas Américas. Do ponto de vista de sua inserção internacional, a visita realça os riscos e oportunidades inerentes à nova condição do Brasil no contexto mundial.
Desde que os Estados Unidos listaram o Irã entre os integrantes do “eixo do mal”, o país diversificou seus interlocutores no âmbito internacional. Equivocadamente, o governo Bush tentou isolar o Irã, que reagiu buscando tecnologias, acesso a mercados e financiamentos junto a outros países. A tentativa de isolamento não apenas fracassou, mas contribuiu para fortalecer os conservadores na sociedade iraniana e para criar o único consenso entre os candidatos à Presidência daquele país: o programa nuclear.
Além de seus tradicionais parceiros no Oriente Médio e na Ásia central, o Irã discretamente aprofundou suas relações com China, Rússia e França, para mencionar apenas países menos controversos. Mais recentemente, reaproximou-se dos Estados Unidos, devido à sua influência cultural e à tradicional habilidade política de suas elites, úteis a encaminhar mudanças no Iraque e a enfrentar dilemas no Afeganistão e no Paquistão.
Essencialmente vinculada à gestão Obama, essa reaproximação vem abrindo outros espaços à sociedade iraniana. Nesse contexto, parcelas progressistas de sua sociedade adotaram novas tecnologias e intensificaram suas interações com as sociedades ocidentais. Não fosse assim, não se teria tomado conhecimento, no Ocidente, das tentativas de se influenciar indevidamente o resultado das eleições em que o atual Presidente conquistou cerca de dois terços dos votos, menos ainda dos protestos em que multidões saíram às ruas gritando por liberdades e justiça. Tampouco se teria tornado pública a repressão às manifestações. Repressão que, cabe lembrar, não ocorre apenas no Irã.
Se as potências ocidentais querem auxiliar a promover mudanças no Irã, é a esta parcela progressista de sua sociedade que se devem dirigir, facilitando sua inclusão, por assim dizer, nos fluxos da globalização. Não por acaso, o Governo Obama procura engajar o Irã, e pede auxílio a outros países nesse processo, entre os quais o Brasil. E não se promove engajamento por meio de condenações preconceituosas; apenas por meio do diálogo e da tolerância.
De fato, qualquer mudança só será permanente se vier da sociedade iraniana. Apenas respeitando-se suas diferenças e encorajando movimentos autóctones e projetos genuínos, com base em valores compartilhados, se pode contribuir para acelerar processos percebidos como desejáveis.
A sociedade iraniana vê-se como herdeira de um império milenar, extremamente complexo, que merece respeito e prestígio internacional. Não se trata de um país recém-descoberto, mas de um povo que deu origem a religiões e filosofias, uma cultura antiga como a China, complexa como poucas. A Pérsia ensinou estratégia política aos gregos, filosofia aos hindus, poesia aos brâmanes. Um povo que cultua poetas e filósofos em suas praças públicas, além de guerreiros armados, merece pelo menos um olhar curioso, uma atitude de respeito.
O respeito com que o Brasil responde ao chamado do governo iraniano, assim como atendeu, nas últimas semanas, ao da Autoridade Palestina e ao de Israel. Curiosamente, sem provocar tanta celeuma. O Governo brasileiro não buscou isso ativamente, mas vem sendo chamado a participar de diálogos e concertações internacionais. Isso guarda relação com aspectos tradicionais e novos da política externa brasileira, bem como com mudanças estruturais nas relações internacionais contemporâneas, que alçaram o Brasil a uma condição de maior relevo no âmbito mundial. Trata-se de um ambiente novo, rico em oportunidades e cheio de riscos. Estamos preparados para atuar nele?
Antônio Jorge Ramalho da Rocha é Professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília – UnB (antonio.ramalho@gmail.com).