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Eleições realinham o cenário político-partidário na Alemanha, por Solange Reis Ferreira

31/10/2009

Inesperado é o que se pode dizer sobre o resultado das eleições parlamentares na Alemanha em 2009.  Angela Merkel renovou o mandato por quatro anos à frente do governo exatamente como indicavam as pesquisas finais. A novidade fica por conta do seu novo parceiro. Além de levar a maior parte dos votos, a união democrata-cristã, formada pelos partidos CDU e CSU, desatou a forçosa aliança com o socialista SPD.

Com 33.8% para a União CDU/CSU e 14.6% para o liberal FDP, os partidos de centro-direita garantiram a já tradicional prerrogativa da maioria, abocanhando 323 assentos, 15 acima do mínimo necessário.  Nada de novo no front?  Nem tanto. A vitória deixou o gosto amargo do pior resultado para a democracia-cristã desde 1949, ano em que foi fundada a Alemanha Ocidental.

Além de reverter o sinal da equação, a união democrata será obrigada a dar uma fatia maior do bolo aos liberais na forma de pastas ministeriais. Habituados ao papel de fiel da balança entre 69 e 98, os liberais alcançaram percentuais inéditos, ainda mais se considerada a conjuntura de crise econômica e a desconfiança com a economia de mercado. Cabe a Guido Westerwelle o mérito de haver catapultado o partido no momento de fragilidade neoliberal.

O maior perdedor foram os socialistas, para quem nem o segundo lugar amenizou o maior fiasco pós-45. Com 23% dos votos, o SPD passa para a oposição com menor poder de fogo e o desafio de redefinir a sua identidade. Parte dos eleitores socialistas aderiu ao partido esquerdista mais genuíno no espectro político alemão na atualidade. Sob o comando de Oskar Lafontaine, Die Linke (A Esquerda) conseguiu o quarto lugar com 11.9% do total, confirmando ser a estrela ascendente do momento.

Outros eleitores do SPD preferiram direcionar 10.7% dos votos ao Partido Verde, onde fulgura o carismático Cem Özdemir. Eleito em 1994 como o primeiro parlamentar de origem turca na Alemanha, ele vem laborando a defesa do ambientalismo e do multiculturalismo para se firmar como uma das figuras mais promissoras do país. Caso a Alemanha procurasse uma personalidade política com apelo popular minimamente semelhante ao de Barack Obama, Özdemir atrairia muitas apostas.

As pesquisas indicavam repetição da Grande Coalizão preto-vermelha – em alusão às cores dos dois maiores partidos – não obstante o descontentamento da banda oriental com os conservadores e as ambiguidades do SPD. Mesmo diante da provável contração econômica na casa de 6%, a Alemanha mostrou sinais positivos no segundo quadrimestre, serenando parte das críticas ao governo.

A plataforma social-democrata soou inapropriada para a recuperação de dois bens nacionais afetados pela desaceleração: o potencial do PIB e a liderança mundial nas exportações. Desorientado entre a proposta política teórica e as práticas de governo, o SPD perdeu seus principais seguidores: os sindicalistas. A derrota pode, entretanto, agitar a política doméstica caso o SPD se alie ao Partido Verde e ao Die Linke.

As implicações da reviravolta eleitoral para a política externa, cujo principal posto coube a Guido Westerwelle (FDP), patinam no campo da incerteza, embora alguma aposta seja possível de antemão.

O primeiro problema para os conservadores diz respeito à manutenção de tropas alemãs no norte do Afeganistão. A renovação do engajamento militar por mais um ano depende da aprovação civil do novo Parlamento. Westerwelle tentará se equilibrar entre a fidelidade transatlântica e a pressão da população e dos partidos de oposição. Steinmeier se opunha à ação militar por princípio, mas a aceitava por pragmatismo. Estando agora do outro lado da mesa, deverá somar forças ao movimento em prol da retirada.

Concernente à integração regional, a derrota dos socialistas impôs restrições ao europeanismo e as perspectivas indicam maior ênfase no aprofundamento do que no alargamento, em claro sinal de continuidade da política européia adotada pelo país nos últimos anos. Turquia e demais candidatos devem adiar os planos de adesão por algum tempo, assim como insatisfeitos permanecem os que batem à porta da OTAN. Desassistidas pelo reinício das relações russo-americanas e distanciadas da União Europeia, Ucrânia e Geórgia podem ser magnetizadas pela esfera russa em caso de mudança nos cenários políticos nacionais, fato mais provável no caso ucraniano.

Em relação à governança global, nota-se o enfraquecimento da corrente internacionalista defendida pela esquerda e da assertividade da direita radical. A Alemanha deverá enfocar menos a entrada no Conselho de Segurança da ONU e resistir à divisão equitativa de poder com os países emergentes na esfera financeira. O low profile do Estado nas questões econômicas tende a desfavorecer o protecionismo agrícola e enfatizar maior diálogo na OMC, pressionando inclusive pela entrada da Rússia no organismo. Nesse caso, a dificuldade será contornar o descontentamento da França e dos Estados Unidos, países com forte lobby agrícola.

O país tem pouco espaço de manobra quanto à extensão das sanções ao Irã, defendidas em recente anúncio de Obama, Sarkozy e Brown. A dependência externa de energia, as boas relações russo-iranianas e o potencial das reservas de petróleo e gás no Irã privilegiam uma posição de diálogo, mas a questão histórica com Israel e a pressão de Washington terão um peso extraordinário na decisão do governo.

Finalmente, dois pontos merecem destaque. A eventual reversão do sucateamento da indústria nuclear visa diminuir a insegurança energética do país e facilitar o cumprimento das metas europeias de emissão de carbono. Bastante questionável do ponto de vista ambiental e da segurança, o renascimento da energia nuclear seria conduzido com prudência a fim de não prejudicar as relações com Moscou, país do qual a Alemanha importa mais de 40% do gás consumido. No que concerne à China, os próximos quatro anos sinalizam aproximação comercial.

Dado o cenário descrito, a política externa será orientada pela especialidade da Alemanha nos últimos 60 anos: o pragmatismo multilateral de ajuste dos interesses nacionais às oportunidades e aos constrangimentos internacionais.

Solange Reis Ferreira é Doutoranda em Ciência Política pela Universidade de Campinas – Unicamp e pesquisadora do INEU – Instituto Nacional de Estudos sobre os Estados Unidos (reissolange@gmail.com).

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