Sumário da Edição No. 99 – Outubro/2008

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A crise financeira mundial e a América Latina: pragmatismos sem teses inovadoras, por José Ribeiro Machado Neto

Atualmente o vocábulo crise se tornou o mais proferido no contexto urbano, desde o cidadão comum pertencente a qualquer um dos diferentes níveis de negócios, até os ocupantes de altos postos de empresas e de organismos governamentais Mas, como definir crise sem apelar para os aspectos predominantes da trivialidade? Para o cidadão de todos os níveis, crise nada mais é do que uma turbulência, um descompasso passageiro ou uma confusão prolongada em determinados segmentos do quotidiano. Entretanto, para os economistas, principalmente os keynesianos e, até mesmo, para alguns neokeynesianos, crise é o desvirtuamento da demanda agregada.
A tipologia da crise, felizmente, não é extensa. De maneira geral, as crises podem ser endógenas ou exógenas; de caráter endêmico ou de natureza epidêmica; estruturais ou de liquidez; e, ainda, especificamente de oferta, que além exclusivas, são distanciadas de quase todas as demais e, principalmente, das denominadas político-institucionais, ou seja, crises políticas, cuja responsabilidade da gênese e desdobramentos cabe à fragilidade dos partidos políticos.
Ao longo do tempo dessas ocorrências, ou seja, das crises, a influência da organização da produção, a política fiscal e a regularidade dos mercados têm servido não somente como balizadores, mas principalmente como importantes e sérios conselheiros que, além de dispensarem a contrapartida das remunerações, têm facilitado sobremaneira a extinção de descompassos entre a oferta e a demanda; entre preços, contratos e salários; e, principalmente, entre os agentes privados e públicos na conquista dos excedentes econômicos. Desta feita, quando prolongados, também favorecem o aparecimento de crises de oferta. Saiba mais

Perspectivas para a resolução de um conflito A retomada das negociações no Chipre e a relevância da UE, por Rafael da Soler

A análise do conflito que mantém a ilha do Chipre dividida há mais de três décadas fornece um exemplo interessante de interação entre diferentes atores internacionais em um contencioso envolvendo comunidades nacionais. O caso cipriota adquire maior relevância por se tratar de um importante conflito não resolvido em um país membro da União Européia (UE), trazendo conseqüências para a dinâmica do bloco e de sua região. A retomada das negociações para reunificação da ilha em setembro passado representa a possibilidade de resolução da questão no médio prazo e permite uma aproximação ao tema, analisando sua evolução histórica e o papel dos principais atores envolvidos, com ênfase na crescente relevância horizontal da UE no processo.
A ampliação dos contatos entre líderes greco-cipriotas e turco-cipriotas ao longo de 2008, culminando em vários gestos simbólicos referentes à aproximação das comunidades e no restabelecimento das negociações formais para reunificação, indica a possibilidade real de se alcançar a resolução do conflito no médio prazo. O resgate do histórico da disputa cipriota se faz, portanto, necessário para se compreender o importante papel de atores externos nos processos domésticos.
A ocupação turco-otomana no Chipre termina efetivamente em 1878, quando da derrota para a Rússia na Guerra Russo-Turca (1877-1878). A administração da ilha passa para o Império Britânico e se consolida com a dissolução do Império Turco-Otomano após sua derrota na Primeira Guerra Mundial (1914-1918), sendo declarada colônia da Coroa em 1925. Neste período já identificam-se tensões entre as duas comunidades principais: os turco-cipriotas (18% da população) e os greco-cipriotas (82% da população). Contudo, o objetivo comum que unifica a população é o fim do regime colonial britânico, minimizando o potencial de conflito intercomunal. Saiba mais

Relações Caracas-Moscou: implicações da presença russa no Mar do Caribe, por Pablo P. Sampedro Romero

O padrão de relações entre a Federação Russa e o Ocidente alterou-se sensivelmente desde o final da Guerra Fria, em um contexto de crescente interdependência energética, aumento mundial dos preços de commodities e recuperação política e econômica da Rússia. Uma maior assertividade das iniciativas da política externa russa foi percebida no âmbito regional, especialmente nas áreas que correspondiam a tradicionais zonas de influência da União Soviética, como o Cáucaso, a Europa oriental e os Países Bálticos.
Essa tendência foi evidenciada em uma série de eventos – como nos casos da crise política ucraniana, das ameaças de interrupção de fornecimento de gás aos países bálticos e do leste europeu, da deterioração generalizada das relações com a Geórgia, bem como da discordância quanto à emancipação de Kosovo – e representam uma mensagem explícita por parte da Rússia de que o país tem plenas condições de projeção de poder no âmbito regional e de que estaria disposta a manter ou recuperar suas zonas de influência tradicional – muitas das quais perdidas para o avanço de outros atores como a UE – impedindo que essas regiões se configurem como espaços para a coexistência de visões estratégicas concorrentes.
Paralelamente, observou-se outra linha de ação da política externa russa, no que se refere a uma maior aproximação com a Venezuela. Se analisado de um ponto de vista mais amplo, o processo de aproximação entre os dois países revela uma tendência iniciada desde 2004, com a realização da primeira reunião de alto nível entre Venezuela e Rússia e com uma série de eventos subseqüentes que envolveram, em especial, a venda de armas e a assinatura de acordos de cooperação técnica e militar. Saiba mais

O Papel das Nações Unidas na questão do Chipre, por Adalgisa Bozi Soares

A questão do Chipre passou por décadas de congelamento do conflito. A atual importância desta pequena ilha do mediterrâneo está ligada ao fato de que a República do Chipre é um membro da União Européia, enquanto que cerca de 37% da ilha vive uma independência de facto, na proclamada República Turca do Chipre do Norte, território que goza apenas do reconhecimento da Turquia. As conseqüências desta situação têm impacto direto na questão do acesso da Turquia à União Européia, e tal ponto por si só seria capaz de dar relevância global para a situação na ilha. No entanto, neste último mês, o Chipre voltou a ser notícia com a retomada das negociações para a unificação da ilha -as mais promissoras da última década. Enquanto, nos últimos meses, as notícias sobre territórios secessionistas têm estremecido o sistema internacional, este caso específico de possível sucesso na reunificação merece uma análise mais detalhada. Muitos são os fatores que podem ter contribuído para que as negociações chegassem a este ponto: o posicionamento da Turquia, a situação econômica do Chipre do Norte e a insegurança da República do Chipre, apenas para citar alguns. Esta análise, no entanto, se concentrará no papel das Nações Unidas para o desenvolvimento da questão, do estabelecimento da UNFICYP até o estabelecimento dos grupos de trabalho para a reunificação e o apoio à nova rodada de negociações entre os presidentes de ambas as comunidades.
Durante o domínio britânico sobre a ilha, os greco cipriotas já manifestavam o desejo de unirem-se à Grécia. No entanto, apesar de constituírem a maioria da população da ilha, os greco-cipriotas a dividiam com os turco-cipriotas, ali instalados pelo menos desde o século XVI e constituindo quase vinte por cento da população. Como uma reação à enosis (integração à Grécia), a comunidade turco-cipriota desenvolveu o desejo de takism, ou seja, divisão da ilha entre as áreas turca e grega. Com a independência da ilha em relação ao Reino Unido, em 1960, o regime político adotado tinha por base a divisão de poder entre suas duas comunidades. Saiba mais

O Liberalismo está em apuros?, por Xaman Korai Pinheiro Minillo

A atual crise que assola a economia norte-americana e vem se expandindo globalmente gera muita incerteza na economia mundial, e críticas duras vem sendo feitas à maneira como o governo Bush procura resolver o problema.
A presente análise oferece uma breve explicação das dinâmicas da crise, iniciada no mercado imobiliário, da explosão da bolha de créditos podres no mercado hipotecário e da expansão do colapso, afetando o sistema de créditos como um todo. Também trata da solução buscada pelo governo norte-americano. Em um último momento, retoma-se a questão do liberalismo: após se fazerem ouvir pronunciamentos freqüentes sobre o fim da era neoliberal é importante buscar o significado desta crise, se ela representa realmente uma retração do liberalismo e os cenários que podem ser desenhados. Saiba mais

Crise política na Bolívia: reflexo de um país dividido ou de um Estado sem nação?, por Rodrigo Wiese Randig

A recente escalada dos conflitos gerados pelo impasse político entre o governo de Evo Morales e seus opositores conduziu a Bolívia ao centro das atenções dos principais atores internacionais sul-americanos. Em maior ou menor grau, contudo, a instabilidade política tem sido uma constante ao longo da história desse país, que desde sua independência, em 1825, foi palco de 193 golpes de Estado. Tampouco o recente período democrático tem sido caracterizado por estabilidade interna: desde 2001, seis foram os distintos ocupantes do gabinete presidencial em La Paz.
Evo Morales é o primeiro presidente boliviano de origem indígena, apesar de a maioria da população do país pertencer às etnias aimará e quéchua. O ex-plantador de coca venceu no primeiro turno as eleições presidenciais de 2005, supostamente pondo um fim ao processo de contínua crise política que levara à renúncia de seus antecessores, centrada na questão da nacionalização das reservas de petróleo e de gás natural – maiores riquezas naturais desse Estado onde seis em cada dez cidadãos vivem abaixo da linha da pobreza.
Após assumir o poder, Morales nacionalizou as reservas nacionais de hidrocarbonetos. A medida, cujo anúncio foi acompanhado de uma ocupação militar desnecessária e com fins indiscutivelmente midiáticos de instalações da Petrobras, contou com aprovação maciça da historicamente fragmentada população boliviana.
A proposta presidencial de uma nova constituição, todavia, pôs fim à breve harmonia aparente. O projeto de Morales visa a permitir o processo de reeleição presidencial única (já existente na maioria dos vizinhos sul-americanos), a assegurar os mecanismos para a realização de uma necessária reforma agrária e a fortalecer os direitos socais de modo a proporcionar melhores condições de vida aos grupos historicamente marginalizados, como camponeses e indígenas. Saiba mais

McCain & Obama versus a administração Bush: economia e segurança nacional, por José Ribeiro Machado Neto

A economia e a segurança nacional sempre foram os segmentos mais importantes e comprometidos nas campanhas presidenciais norte-americanas e, agora, não poderia ser diferente. Neste atual momento os EUA e seus principais aliados europeus – além da China e Japão – estão presenciando de formas diferenciadas, mas com relativa apreensão, os desdobramentos de mais uma inesperada e séria crise de liquidez, cujas causas são endógenas do próprio mercado financeiro norte-americano, reforçadas pelo clima político da sucessão e, em menor intensidade, pelas intervenções no Afeganistão e no Iraque.
Por menos organizado que seja o mercado financeiro norte-americano, quando comparado com o da União Européia e do Japão, permite-nos observar que o poder de fogo do Federal Reserve (FED) não foi utilizado adequadamente, não obstante as injeções monetárias em termos aproximados de US$ 600 bilhões, cifra considerável para a atual extensão da crise, mas que reflete a preocupação e medo das autoridades monetárias norte-americanas pelo retorno dos fantasmas de 1929. Milton Friedman (1995) ao diagnosticar as causas da crise de 1929 sob a ótica do monetarismo criticou com ênfase a morosidade do governo para implementar injeções monetárias. Desta feita elas surgiram rapidamente, inclusive, advindas da Europa e Ásia, que ultrapassam US$ 200 bilhões. Saiba mais

Os Quatro Mitos Norte-Americanos, por Cristina Soreanu Pecequilo

Realizou-se, no dia 15 de Outubro, o último debate presidencial para a Casa Branca, faltando pouco mais de um mês para o pleito que se realizará no próximo dia 04 de Novembro. Precedido por outros dois encontros entre Barack Obama e John McCain, e um encontro entre os candidatos à vice-presidência, Joe Biden e Sarah Palin, este embate entre democratas e republicanos concentrou-se na discussão de temas domésticos e na confrontação aberta entre Obama e McCain em meio a uma das mais caras e negativas campanhas das últimas décadas nos EUA. Como nas demais oportunidades, as percepções sobre “quem ganhou” este confronto de idéias foram divididas, podendo-se apontar um empate técnico entre ambos, com aliados dos dois lados proclamando uma clara vitória da linha política que apóiam.
Depois de quatro confrontos, todavia, o eleitor independente, moderado e de centro, parece continuar indeciso, o que tem levado os candidatos a fortemente apoiar na unidade e mobilização das bases para garantir uma maior votação. Esta mobilização, até o momento, tem sido mais presente do lado democrata e o atual quadro favorece a candidatura de Obama que, segundo as últimas contagens do Colégio Eleitoral parece obter uma vantagem significativa de cerca de 100 votos. Segundo dados do site da CNN, estariam garantidos para Obama em 16/10/2008 cerca de 274 votos eleitorais, enquanto seriam 177 votos assegurados para McCain (87 votos estariam sem definição clara). Saiba mais

Tailândia: da democracia imperfeita à democracia funcional, por Wilson Tadashi Muraki Junior

A Tailândia, país com pouco menos de 65 milhões de habitantes e localizado no sudeste asiático, é um ator de importância regional. A proximidade e as interações com os vizinhos tornam Bangcoc um importante sustentáculo de estabilidade, e é por esse motivo que as recentes turbulências políticas colocam o país numa ambígua situação de modelo a ser seguido e evitado: ao mesmo tempo em que aberturas políticas vêm assegurando crescimento vigoroso da economia, processos políticos ainda hoje denotam um forte grau de inconsistência democrática.
De forma geral, a Tailândia orgulha-se de ter sido o único país da região que não sofreu qualquer tipo de invasão ou colonização por potências ocidentais. Além disso, sua configuração geográfica estratégica, população de peso e histórico de participação em fóruns multilaterais e busca de cooperação rendem ao país um papel de destaque para o Ocidente, especialmente para os Estados Unidos, que, em 2004, chegaram a elevar a Tailândia à categoria de grande aliada fora da OTAN.
Apesar de que em menos de um século tenha havido dezenas de trocas constitucionais, golpes de estado e violações de direitos democráticos, a Tailândia tem sido o que se pode considerar um dos melhores casos de democracia liberal na região. Seria interessante para norte-americanos e europeus ocidentais, por exemplo, que a Monarquia Parlamentar relativamente constante se mantivesse empenhada em buscar a estabilidade política e institucional, de modo que o sucesso democrático no país servisse de base para o spill-over de movimentos liberalizantes em uma região marcada por governos fechados e não-democráticos, como Mianmar, Laos, e mesmo a China. No entanto, isso parece ser um papel consideravelmente difícil de ser atribuído se simplesmente se analisa o histórico recente de tumultos políticos por que tem passado o país. Saiba mais