Sumário da Edição No. 98 – Setembro/2008

Olimpíadas e geopolítica, por João Fábio Bertonha

Em agosto do corrente ano o mundo parou para ver as Olimpíadas de Pequim. Em teoria, o momento de congraçamento da raça humana em torno de uma atividade completamente apolítica, ou seja, o esporte. No entanto, a prática é muito diferente e é possível identificar, nas competições olímpicas, não apenas um dos grandes lugares para a reafirmação do nacionalismo no mundo contemporâneo, como um excelente instrumento para examinar o status do planeta em termos de diferencial de poder e riqueza entre as nações.
As Olimpíadas modernas não são realmente o lugar de encontro de jovens atletas amadores, que treinam nas horas vagas e que procuram demonstrar seus talentos a seus pares. A vitória, a qualquer preço, é o que se deseja e talvez não haja frase mais hipócrita e falsa do que “O importante é competir”. Os atletas e as nações estão lá para demonstrarem que são os melhores e triunfar, e só para isto. Ou alguém acredita que o festival midiático encima de Michael Phelps foi devido ao tamanho dos seus braços?
Para que um atleta triunfe em uma competição de nível como as Olimpíadas, são necessárias várias coisas. Em primeiro lugar, alguns são beneficiados pela genética, que facilita a sua prática de um dado esporte. Em segundo, uma imensa força de vontade para treinamentos sem fim. E, por fim, toda uma estrutura que o acompanhe, de preferência desde cedo, com alimentação balanceada, tecnologia para os treinos, técnicos e outros profissionais do esporte sempre presentes. Estrutura, enfim. Saiba mais

08/08/08: a política externa chinesa num momento de ‘paz e guerra’, por Wilson Tadashi Muraki Junior

Os Jogos Olímpicos foram, nas palavras de Hu Jintao, um compromisso que o país assumiu e cumpriu seriamente perante a comunidade internacional. A mais do que isso, porém, pode-se estender o propósito a que tal evento esteve condicionado na mentalidade dos governantes do Partido Comunista Chinês (PCC): um momento para que o mundo conhecesse uma China moderna, vibrante e poderosa. Mas, para tanto, tudo deveria acontecer de forma perfeita, sem sobressaltos, mesmo que para isso se tivesse que lançar mão de opressão a protestos de tibetanos às vésperas dos jogos, contenção de movimentos a favor de maior liberdade e de direitos no país. Ainda nesse sentido, até mesmo uma inesperada abertura de imprensa e relativa transparência caracterizaram os esforços de resgate e ajuda aos milhares de afetados pelos terremotos em Sichuan. Contudo, as restrições às informações não deixaram de ser recorrentes, como pôde ser demonstrado pelo impedimento a jornalistas de cobrir de forma irrestrita as motivações e conseqüências dos atentados em Xinjiang poucos dias antes do início oficial dos jogos. Outros problemas sistêmicos a tomar vulto foram a poluição generalizada e os absurdos jurídico-legais comuns na China. Ainda assim, o brilho dos jogos foi inquestionável, além de que o posicionamento do país no quadro de medalhas lhe rendeu a reputação de superpotência a derrotar os norte-americanos, mesmo que tão-somente no campo esportivo. No entanto, a alguns milhares de quilômetros de Beijing, a Rússia enviava bombardeios, tanques e soldados à pequena Geórgia, construindo uma situação extremamente difícil para o PCC, mas, sem sombra de dúvidas, repleta de lições e implicações. Saiba mais

Sobre a recorrente instabilidade política tailandesa e a falta de repercussões internacionais, por Diogo Mamoru Ide

Mais um Primeiro-Ministro tailandês foi forçado a se retirar. Samak Sundaravej, eleito no início deste ano, anunciou sua renúncia ao cargo após sofrer duras críticas e ameaças de golpe por parte de adversários políticos. A principal motivação foi o recebimento de pagamentos decorrentes da aparição realizada no programa de culinária que chefiou ao mesmo tempo em que exerceu o posto de Primeiro-Ministro.  A constituição da Tailândia proíbe que o Primeiro-Ministro tenha emprego privado, fato que torna ilegal tanto o emprego de apresentador que Sundaravej exerceu como a contrapartida econômica recebida. Os pagamentos pela aparição na televisão foram o mote que faltava para crescer ainda mais a instabilidade política no país e para degradar ainda mais a frágil democracia tailandesa.
A cobertura da imprensa internacional sobre os desdobramentos ocorridos foi baixa, acompanhando o comportamento de muitos países de não se pronunciar sobre os fatos ocorridos. Certamente muito do foi observado no último mês reflete em grande medida o jogo político doméstico e não engendra implicações que afetam diretamente outros países. Cumpre, entretanto, ressaltar que, na medida em que as instituições democráticas sofrem de um problema crônico de fragilidade e em que os acontecimentos políticos descortinam o clima de forte turbulência, era esperado o acompanhamento mais próximo da comunidade internacional. Saiba mais

Sobre política e partículas: a produção científica como um microcosmo da conjuntura internacional, por Heitor Figueiredo Sobral Torres

A ciência, aqui entendida como uma modalidade humana de investigação do mundo natural, possui a função básica de servir como meio para aumentar o conhecimento sobre a realidade. A autoridade que a investigação científica apresenta para esse fim, em relação a outros meios de investigação da realidade, é derivada de um longo processo de aperfeiçoamento dos seus métodos e de mudanças sociais, políticas e filosóficas relacionadas às contínuas secularização e racionalização do Ocidente.
O interesse principal do presente texto está ligado mais intimamente a esse último aspecto da ciência, que lida com o seu lado social. A criação de teorias e a produção de novas formas de tecnologia são atividades que demonstram a capacidade de a ciência intervir na sociedade, modificando-a direta ou indiretamente. Continuando a delimitação do objeto desse texto, há o interesse de analisar a relação oposta, ou seja, a influência da sociedade sobre a produção científica. Em vez de se examinar o papel das teorias e dos cientistas como agentes da sociedade, procurar-se-á examinar o traço da sociedade na ciência. Saiba mais

Interação doméstico-internacional na decisão polonesa de acordar pelo recebimento de escudo antimíssil, por Evandro Farid Zago

Segundo Robert Putnam, existe uma relação direta e recíproca entre política doméstica e relações internacionais. Não há, por isso, supremacia de nenhum dos dois elementos na determinação das dinâmicas globais de poder, fazendo com que fatores internos e externos sejam mutuamente influentes. Por conseguinte, diversos processos internacionais de tomada de decisão podem ser mais bem compreendidos se analisados por meio da estrutura do jogo de dois níveis desenvolvida por Putnam.
O acordo assinado entre EUA e Polônia no último vinte de agosto para instalação de um escudo antimíssil em território polonês é exemplo da interação dos âmbitos doméstico e internacional. Assim sendo, a presente análise de conjuntura buscará interpretar os fatos relacionados ao tratado americano-polonês à luz da teoria de Putnam. As linhas que se seguem estarão, ademais, essencialmente focadas nos acontecimentos dados na Polônia – e não nos EUA. Isso se deve ao fato de que os constrangimentos de política doméstica poloneses mostraram-se mais explícitos e palpáveis do que os americanos, de forma a conferir maior subsídio para exercício analítico.
Não obstante, antes de utilizar o jogo de dois níveis para explanação da assinatura do acordo, vale contextualizar o fato nos atuais arranjos do sistema internacional. Os norte-americanos têm desenvolvido, desde o início dos anos 1990, um programa para defesa de seu país contra ataques que façam uso de mísseis balísticos. Como conseqüência, foram gastos cerca de US$ cem bilhões num projeto que inclui a instalação de radares de longo alcance e de bases para lançamento de mísseis defensivos por todo o globo. Com isso, atualmente, os EUA possuem unidades desse verdadeiro escudo planetário na Califórnia, no Alasca, na região britânica de Fylingdales e em embarcações atracadas em alto mar. Há, ademais, planos para instalação de bases na Groenlândia e de um radar na República Tcheca (neste último caso, já foi inclusive assinado acordo com o governo local para efetivação do projeto). Saiba mais

Nação e nacionalismo na Era Global: o caso da reunificação da Alemanha, por Márcio Santos de Santana

Nação, nacionalismo, nacionalidade são termos intimamente ligados, uma vez que designam componentes de uma mesma problemática, qual seja, a da construção e/ou reconstrução da nacionalidade, de suma importância nos dias atuais, em virtude das discussões sobre o processo de globalização. Este, por sua vez, traz em seu bojo idéias como aldeia global, integração do mundo, civilização universal, governo mundial, entre outras variações. Exatamente neste contexto de globalização, de certo modo como uma resposta ao processo, é que se tem expandido e aprofundado as discussões e manifestações identitárias em diversas partes do mundo.
Os teóricos que se dedicaram ao estudo da problemática da nacionalidade têm apresentado alguns instigantes caminhos de análise. Ernest Renan é um desses pensadores, dos mais antigos e ilustres. É dele a célebre frase sustentando que “a essência da nação é que os indivíduos tenham muitas coisas em comum e, também, que todos tenham esquecido muitas coisas”. Este princípio de seletividade é, com certeza um dos mais importantes para a solidificação de qualquer nação. A solidez das nações e a intensidade do nacionalismo devem impressionar os analistas que apostaram na superação do Estado-Nação, das Nações e do nacionalismo, sobretudo aqueles que compartilharam das teses de Kenichi Ohmae no seu O fim do Estado-Nação. O caso da reunificação da Alemanha é paradigmático para um princípio de abordagem da reação das nações ao processo.
Estudiosos têm apontado que o grande desafio para os alemães é destruir o “muro psicológico”, ainda presente nas mentes dos alemães. A parte Ocidental da Alemanha é detentora de uma melhor qualidade de vida em relação à parte Oriental. Isso porque recebeu sólidos investimentos internacionais que possibilitaram um desenvolvimento econômico muito superior, gerando um visível descompasso entre as duas sociedades, servindo como substrato para diferenças culturais sólidas, além de cristalizar um status de relativa inferioridade para o lado oriental. Saiba mais

Afeganistão: qual destino na política externa dos Estados Unidos em 2009?, por Virgílio Arraes

Durante a bipolaridade, coube ao Partido Republicano encerrar duas longas confrontações iniciadas na Ásia pelos democratas, seus opositores: Coréia nos anos 50 e Vietnã, nos 70. Competiria aos democratas, se vitoriosos, o mesmo encargo, de difícil execução. Se houvesse a mudança de posicionamento, cessariam os efeitos colaterais como a existência de prisões secretas fora do território estadunidense ou a aplicação de maus tratos aos detentos.
Todavia, há visões distintas no âmbito do Partido Democrata sobre a participação dos Estados Unidos no Iraque e no Afeganistão. À primeira vista, o Irã não seria evocado com vistas a um empreendimento bélico.
Quanto à duração da permanência em território iraquiano, os democratas subscrevem a necessidade de retirarem-se gradativamente as forças armadas do castigado país. Cinco anos e meio de presença auxiliaram a desestabilizá-lo ainda mais e, desta forma, contribuir para o maior empobrecimento da desvalida população.
No tocante à continuidade no Afeganistão, não há consenso sobre o retorno dos efetivos, mesmo após sete anos. Invoca-se o argumento de que lá estaria o centro do terror fundamentalista, visualizado no grupo do intangível Osama Bin Laden – ele mesmo pode estar refugiado no Paquistão, ainda aliado dos Estados Unidos.  Saiba mais

O Novo Realismo: a Ordem Internacional à Luz de Kosovo e Geórgia, por Artur Andrade da Silva Machado

No início de agosto, tropas russas invadiram um país vizinho e desde então muitos começaram a afirmar que a Geórgia é o cemitério da unipolaridade. Há ainda os mais dramáticos, que apostam na emergência de uma nova Guerra Fria. No entanto, para quem acompanha a política externa russa, este não foi um caso isolado, mas se enquadra numa mesma linha de antagonismo de Moscou vis-à-vis a imposição da hegemonia do Ocidente. Instâncias de tal oposição verificam-se na expedição unilateral russa para o Ártico, na posição de Moscou frente ao programa nuclear iraniano, na retaliação ao abastecimento de gás da Ucrânia e da Europa Ocidental, na defesa da soberania serva indiferente à declaração de autonomia de Kosovo e no embate ocorrido devido à instalação do escudo antimísseis norte-americano.
Apesar dos boatos, não é possível afirmar com segurança que a relação entre a Rússia e o Ocidente sofrerá transformações qualitativas em virtude dos desenvolvimentos do último mês de agosto. Pelo contrário, o que se observa é a continuidade e a intensificação da política externa russa de oposição à marcha de uniformização de valores imposta pelo Ocidente, na área que a Rússia delimita para o exercício de sua influência. Além disso, tendo em vista que a priori a Geórgia apenas movimentou tropas dentro de seu próprio território, a defesa do argumento de que foi a Geórgia que primeiro atacou a Ossétia do Sul por muitas das mais representativas fontes de informação da Europa Ocidental, é fato indicativo de que a Europa continuará a evitar indispor-se frontalmente com a Rússia.
Também os paradigmas especializados no estudo das relações internacionais não permitem pensar em transformações estruturais do sistema internacional. Desde uma perspectiva neo-realista, não houve redistribuição substantiva nas porções de capacidades de poder dos Estados que justifique transformações na geometria da estrutura sistêmica. Em outras palavras, enquanto a estrutura de poder militar permanecer inalterada, não será possível prescrever, a partir da receita neo-realista, que haverá mudanças para o ordenamento do nível sistêmico. Recorrendo também à teoria construtivista de Wendt, a resposta Russa à provocação do governo da Geórgia não permite redistribuição macroestrutural no quadro de atribuição dos signos de amigo e inimigo entre os Estados. Além disso, sintomas de uma postura de apaziguamento por parte dos países europeus também indicam que não haverá drástica transformação nas percepções que se desenham a partir da relação entre a Rússia e o Ocidente. Saiba mais

Securitização e desenvolvimento no espaço amazônico, por Thiago Gehre Galvão

Que tipo de relação se estabelece entre o fenômeno da mudança climática e a agenda de segurança internacional? É possível desvincular os projetos de desenvolvimento nacional e regional da agenda de segurança internacional? Estas duas questões sintetizam as preocupações de intelectuais e governantes em um mundo pós-11 de setembro onde os assuntos de segurança se difundiram pela agenda internacional. O desafio do desenvolvimento perpetua-se, assim como a necessidade premente de se pensar soluções próprias, de um ponto de vista local e regional.
Este artigo procura esclarecer de forma breve e concisa a interligação dos temas da mudança climática global, da preservação ambiental, das matrizes energéticas, da produção de alimentos e do desenvolvimento nacional e regional com a agenda de segurança internacional. Parte-se de dois pressupostos: a) segurança internacional deve ser entendida como algo que abarca toda a humanidade e que enfoca a multidimensionalidade das fontes de perigo e risco ao invés de apenas ameaças militares aos Estados; b) o conceito de segurança é complexo e indivisível, no sentido que os setores alimentar, humano, ambiental, energético e militar fazem parte de um mesmo quadro de entendimento da realidade. Saiba mais