China e índia – os Gansos e o Pavão, por Paulo Antônio Pereira Pinto
Como fica a tese da “revoada dos gansos”, agora que o “pavão” indiano emerge no cenário internacional?
Cabe recordar, a propósito, que, na década de 1980, acreditava-se que o Japão seria o “ganso” líder, em virtude de bem sucedido processo de desenvolvimento industrial voltado para exportações. Na medida em que seus produtos vendidos ao exterior se tornassem mais sofisticados e caros, os bens de menor valor agregado teriam sua manufatura, gradativamente, transferida para outros locais vizinhos, na Coréia do Sul, Cingapura, Hong Kong e Taiwan. Estes viriam a tornar-se novos “gansos” e a formar a tal “revoada “, atrás dos japoneses.
O “dragão” chinês, então, não era considerado capaz de ser incluído nesta formação. As justificativas para a decolagem da China, no final do século passado, passaram a ser encontradas em ampla bibliografia sobre a questão de “valores asiáticos” e sua influência no processo dos “flying geese”. Segundo esta forma de pensar, o “hierático universo confuciano”, de origem chinesa, estaria permeando o fenômeno de crescimento da Ásia Pacífico, misturando gansos e dragão numa mesma revoada.
A partir do início do atual milênio, no entanto, o pavão indiano, no contexto do “macunaístico caleidoscópico hindu-muçulmano “, começa a marcar presença neste já eclético bando de aves, todas símbolo de crescimento econômico. Na Índia, contudo, além do pavão, de pouca autonomia de vôo, há, em Mumbai, abutres, corvos e muitas – muitas mesmo – pombas que, com o comportamenteo errático idêntico ao dos demais habitantes do país, não obedecem a preceito confucionista algum. Tornou-se necessário, portanto, criar novo discurso ou tese, para explicar o aleardeado fenômeno de emergência no Sul da Ásia..
Assim, o ex- editor da revista “Economist”, Bill Emmott, acaba de publicar o livro “Rivals – How the power struggle between China, India and Japan will shape our next decade”, no qual cria abordagem inovadora para explicar a evolução dos países asiáticos, afirmando que as elites dos mesmos poderiam ser divididas entre “produtivas” e “parasitárias”.
Nessa perspectiva, fica resolvida a questão do enquadramento do pavão no fenômeno de crescimento regional. Isto é, na sequência da produtividade das elites dos países dos gansos e do dragão, o animal indiano, agora, se veria livre de sua elite parasita.
Para o observador em Mumbai, no entanto, não caberia adotar – neste universo aviário – a simples postura de um papagaio, no sentido de apenas imitar raciocínios gerados em capitais européias e norte-americanos. A título de exercício de reflexão, buscam-se outros enfoques sobre o ressurgimento atual da influência de civilizações asiáticas, no cenário internacional.
SEM VISÃO DE PAPAGAIO
A “Ásia”, a propósito, é uma expressão geográfica, onde como foi visto acima, aves de diferentes tipos são usadas como símbolos distintos. Não corresponde a uma civilização particular. Agrupamentos humanos muito variados se espalharam por seu território. Uma “civilização asiática” se apresenta, apenas, no Extremo Oriente. Naquela área, a vida humana se relaciona mais com o continente do que com o mar ou seu litoral.
Pode-se falar, no entanto, de um mundo do Oceano Pacífico e outro do Índico. Cada um destes deve ter suas aspirações estudadas separadamente. A natureza e a história concederam traços comuns a estes dois vastos conjuntos, diferenciando-os do mundo Ocidental.
O CASO DA CHINA
Os primórdios da história da China são marcados por sucessivas invasões de povos do Norte e Noroeste, levando ao surgimento e falência de grandes Impérios. Assim, a dinastia “Chang” floresceu no Segundo Milênio antes de Cristo, tendo sucumbido a invasores conhecidos como os “Tchéous”.
Em seguida, um novo Império se organiza, mas é tão vasto que é fracionado em principados, hostís uns aos outros. A Guerra Civil se intensifica até que uma família mais forte, a dos “Han”, impõe sua autoridade. Os quatro séculos de paz assegurados pelos Hans são seguidos por novo período de anarquia até que veio a ser instalada a dinastia Tang ( 618-907).
Estas lutas internas, no entanto, não impediram que a China estendesse sua influência sobre a península coreana e ilhas japonesas.
Tais conflitos marcaram profundamente a mentalidade chinesa em dois aspectos principais: o camponês viveu sempre na ignorância sobre as causas dessas profundas alterações na vida política do país, enquanto consolidou completa indiferença sobre o que se passava além do seu grupo social de interesse mais próximo, isto é, a família e a aldeia; e o comércio e a agricultura se desenvolveram à margem dos grandes movimentos políticos que sacudiram o Império chinês, através dos séculos.
O CASO DA ÍNDIA
Até a chegada dos conquistadores turcos-afegãos, no século XII, as sucessivas levas de invasores ou novos imigrantes que chegavam à Índia foram sendo absorvidos pela civilizações já estabelecidas na área. Assim acontecera com gregos, hunos e diferentes grupos e tribos da Ásia Central .
Com turcos e afegãos, no entanto, veio novo elemento cultural que não foi absorvido pelo Hinduísmo – o Islã.
Mesmo que estas duas religiões tenham permanecido separadas e distintas a civilização que chegou à Índia com o Islã começou a influenciar todos os aspectos da vida local, criando o que alguns estudiosos chamaram de uma cultura Indo-Islâmica, particularmente no Norte do país.
Dois debates são criados, com respeito ao relacionamento entre a Índia e o Islã. O primeiro é histórico. Estudiosos ocidentais descrevem as dinastias turco-afegãs e suas sucessoras, Mughals, como o período de regência muçulmana na Índia. Outro grupo de acadêmicos discorda. Para estes, a comunidade muçulmana não exerceu poder, tendo, na verdade, o compartilhado com lideranças comunitárias locais.
O segundo debate diz respeito à teoria de que haveria duas “nações” na Índia, após a chegada do Islã àquele país. Este ponto-de-vista justificaria a divisão atual do sub-continente, com a criação do Paquistão.
Os que se opõem a tal interpretação assinalam que o sentimento de nacionalidade surgiu, na Índia, apenas em meados do século XIX. Havia uma elite muçulmana, naquela época, mas o país fora governado pelos ingleses.
Tais considerações podem parecer obscuras, mas conduzem ao âmago da questão da identidade indiana, na medida em que coloca o país em condição de absorver influências externas, sem perder seu sentido de identidade.
GANSOS, DRAGÃO E PAVÃO
Caberia, assim, comparar as posturas chinesa e indiana, no processo de absorção de influências ocidentais, a partir do início do século XVIII, para que se chegue a critérios sobre as aspirações atuais dos dois países.
No que diz respeito à China, estes aportes do exterior ocorreram no momento em que sua civilização e sistema de governança estavam enfraquecidos. Naquele país, as pressões exercidas de fora, portanto, foram mais traumáticas do que na Índia.
No caso chinês, houve evolução no sentido a um “nacionalismo” e totalitarismo, que se fundiram durante a fase maoísta. Na Índia, as influências externas levaram a tolerância quanto à diversidade cultural e a uma democracia eleitoral vigorosa.
Verifica-se, portanto, que não cessam os esforços de mistificação para explicar, com a utilização de aves simbólicas, suas revoadas e evocações a diferentes tipos de elites, o resurgimento recente da importância e influência de civilizações antigas, como a chinesa e a indiana. Todo esse esforço buscaria explicar a padronização de aspirações povos distintos, como resultado da globalização.
Na prática, para o observador em Mumbai, verifica-se que a criação de uma economia global e o fortalecimento de novas tecnologias não erodiram culturas e valores locais, no chamado continente asiático. Pelo contrário, na medida em que as pessoas tiveram acesso a maior informação e educação, suas diferenças culturais se tornaram mais pronunciadas – não menos. Nesse processo, diferentes grupos demonstraram perseguir visões distintas de projeto nacional, assim como reagiram contra ameaças a sua identidade cultural.
Enquanto isso, ao papagaio verde e amarelo resta consolidar formas de interlocução com tais sociedades – ou ninhadas – multiculturais, multilíngues e multiquasetudo, consolidando heranças e posturas comuns, sem preocupação com rótulos e símbolos criados no Ocidente.
Afinal, no começo, nossa inserção internacional deu-se com a busca da Rota das Índias e, por influência portuguesa, costumes, crenças e saberes de origem chinesa foram introduzidos, logo no início de nossa História, na maneira brasileira de ser.
Mas, estes são tópicos para outros exercícios de reflexão.
Paulo Antônio Pereira Pinto é Diplomata de carreira e atualmente exerce a função de Cônsul-Geral do Brasil em Mumbai, índia. As opiniões expressas neste artigo são de sua inteira responsabilidade e não refletem posições do Ministério das Relações Exteriores do Brasil (papinto2006@gmail.com).