Arquivo

Archive for agosto, 2008

Sumário da Edição No. 97 – Agosto/2008

Guerra na Ossétia do Sul: a Geórgia como foco de conflito entre a Rússia e o Ocidente, por Rodrigo Wiese Randig

Apesar de sua brevidade, a recente guerra no Cáucaso tem sido considerada um ponto de inflexão nas relações internacionais contemporâneas, marcando a volta definitiva da Rússia ao centro do cenário político internacional como um desafio à unipolaridade supostamente em vigência desde o fim daquela que alguns analistas mais pessimistas já começam a chamar de “primeira Guerra Fria”.
O conflito opôs a Federação Russa e a República da Geórgia e teve como foco a região conhecida como Ossétia do Sul, tendo provocado também um efeito de repercussão (“spillover”) na Abecásia. Tanto a Abecásia quanto a Ossétia do Sul governam-se como estados independentes e buscam há anos obter o reconhecimento de sua soberania pelo governo georgiano e pela comunidade internacional, que as consideram parte da República da Geórgia. Por essa razão, desde o fim da União Soviética a situação nas duas regiões é de instabilidade e iminência de conflito. Ainda assim, a deflagração de uma verdadeira guerra, opondo diretamente os governos de dois estados internacionalmente reconhecidos, surpreendeu a comunidade internacional no dia em que suas atenções estavam voltadas para a abertura dos jogos olímpicos – fato irônico, considerando-se que nos primórdios dos jogos, na Grécia Antiga, seu início impunha uma trégua às guerras em curso. Leia mais…

Guerra na Geórgia: marco para o fim da unipolaridade?, por Adalgisa Bozi Soares

Os atentados de setembro de 2001 tiveram muitos significados para a política internacional. Por um lado, o otimismo do pós-Guerra Fria pareceu sepultado definitivamente. Por outro, a guerra contra o terror, desencadeada com a liderança dos Estados Unidos pareceu reunir grande parte do chamado Ocidente e a Rússia contra um inimigo em comum, o extremismo islâmico terrorista. Um olhar mais atento sobre esta situação mostra que as similaridades entre terroristas anti-americanos e os chechenos, grande alvo da luta contra o terror russa, são de fato pequenas. No entanto, a retórica da luta da contra o terrorismo islâmico, aceita no Ocidente, emprestou grande legitimidade à ação russa, e por alguns momentos a comunidade internacional pareceu convergir no entendimento de que a ordem pós-Guerra Fria enfrentava um desafio: a luta contra grupos não-estatais violentos que estavam à margem do Direito Internacional.
No entanto, o período de convergência de objetivos entre Rússia, Estados Unidos e União Européia parece ter chegado ao fim. Essa afirmativa faz sentido se considerarmos os últimos eventos no Cáucaso, mas diz respeito a um longo processo que parece ter culminado com a invasão da Rússia na Geórgia e nos faz pensar sobre o sistema internacional, que há quase vinte anos é entendido como unipolar. Leia mais…

Presença e peso da política externa francesa sob Sarkozy, por Heitor Figueiredo Sobral Torres

A transição presidencial de Jacques Chirac a Nicolas Sarkozy, ocorrida em maio de 2007, repercutiu como uma fase de renovação na política francesa. Embora posicionados em escalas praticamente idênticas do espectro político, Chirac e Sarkozy são dotados de estilos diferentes de administração, mesmo que apoiados constantemente em valores comuns, como a participação significativa do Estado na economia. Mais que um estilo diferente, o novo presidente assumiu o cargo com responsabilidades distintas, sinalizadas em sua campanha e aspiradas pelo povo francês ao demonstrar descontentamento com os doze anos de governo de Chirac.
O imobilismo dos últimos anos do governo anterior, aliado a certo conservadorismo na execução da política externa, deu lugar a uma abordagem mais reformista. O ato inicial de nomear um gabinete multiétnico e com forte presença feminina teve forte repercussão simbólica. A negociação direta com as tradicionalmente poderosas uniões trabalhistas permitiu a execução das primeiras modificações na economia local.
A política externa, para a qual as atenções serão voltadas nessa análise, também contou com dose semelhante de ruptura. Vale notar, de antemão, que a inflexão inicial foi principalmente ideológica e alegórica. A postura antiamericana, pró-arabista e de laços significativos com as antigas colônias, cultivada praticamente desde Charles de Gaulle e sustentada por Chirac, parece ter dado lugar a maior aproximação com os Estados Unidos e com Israel, além da diversificação das relações com países africanos e asiáticos. Leia mais…

Queda e ascensão de líderes paquistaneses e a repetição do ciclo vicioso, por Diogo Mamoru Ide

Em meados do mês de agosto de 2008, ocorreu a derrocada final do governo de um importante líder sul asiático. O prestígio e o poder autoritário que caracterizam o governo de Musharraf em tempos passados foram aos poucos se esmaecendo, de forma que nos últimos seis meses o então presidente não dispunha mais da unidade interna e da estabilidade necessárias para governar. Após sete anos à frente da presidência do Paquistão, uma série de fatos e processos, como o fortalecimento do Partido Popular Paquistanês (PPP) após a morte de Benazir Bhutto, a vitória de grupos de oposição nas eleições parlamentares, a crise econômica e a ameaça de impeachment liderada pela oposição, culminaram com a renúncia de Pervez Musharraf.
O afastamento de Musharraf seguido pela eleição do viúvo de Benazir Bhutto, Asif Zardari ao cargo de Presidente gera no momento grandes expectativas quanto: (1) a governabilidade do novo governo; e (2) às mudanças/continuidades nos níveis doméstico e regional. Afinal, como deverão ser tratadas as relações com Índia acerca dos territórios da Caxemira e de Jammu? Como o novo governo lidará com a aliança com os EUA na Guerra contra o Terror e com a crescente atividade da Al Qaeda e do Talibã nas fronteiras com o Afeganistão? Cabe frisar que, em razão do enfraquecimento das instituições democráticas e das alterações na Constituição realizadas por Musharraf para expandir seu poder, Zardari herdará um amplo poder sobre o arsenal nuclear paquistanês e sobre o alto comando do exército. Além disso, terá o poder de dissolver o parlamento eleito, algo pouco imaginável em democracias onde há a divisão dos três poderes.
A presente análise de conjuntura tem como objetivo lançar luz sobre três questões: os fatores que concorreram para a saída de Musharraf, a suposta fragilidade interna do novo governo e os principais processos em curso na política externa paquistanesa – com destaque à crescente instabilidade observada no Afeganistão. Leia mais…

Agenda Doha: o que esteve em jogo na Genebra de 2008, por Carlos Nogueira da Costa Júnior

As grandes formas de contato entre povos de diferentes origens foram motivadas, na longa duração histórica, sob duas formas básicas: a divergência de interesses e a convergência de objetivos. A primeira forma, por conseguinte, gera controvérsias que são decididas sob dois modos, quais sejam, a solução pacífica – negociada ou forçada pela dissuasão – e a medida bélica, na qual o resultado é imputado por uma parte, compulsoriamente, à outra. A segunda motivação que leva ao estabelecimento de contato é a convergência de interesses. Nesse caso, um modo comum é a troca de bens e serviços para satisfação de necessidades mútuas. Trata-se, destarte, do próprio ato de comércio. Segundo os teóricos do sistema-mundo, como Arrighi, Braudel e Wallerstein, as relações comerciais engendraram a internacionalização do capitalismo e tornaram possível o processo contínuo de globalização, entendido aqui como a compressão do espaço-tempo.
Após a II Guerra Mundial, visto pela historiografia das Relações Internacionais como o mais profundo e nefasto contato entre Estados, o do tipo bélico motivado pela dissonância de interesses entre os atores internacionais, deu-se início a uma reestruturação do comércio internacional. Lideradas pela potência norte-americana, os acordos de Bretton Woods, assinados em New Hampshire no ano de 1944, deram nascimento ao tripé da economia mundial contemporânea. Sob tal ocasião, foram criados três regimes internacionais que tinham como objetivo ulterior a consagração e manutenção do equilíbrio econômico, como meio para satisfazer as necessidades humanas e, portanto, defender a paz internacional. Salienta-se que esta é vista, pragmaticamente, não como um cenário impérvio aos meandros dos conflitos e divergências próprias das relações sociais, mas como um ambiente ausente de soluções bélicas aplicadas às controvérsias. Leia mais…

China e índia – os Gansos e o Pavão, por Paulo Antônio Pereira Pinto

Como fica a tese da “revoada dos gansos”, agora que o “pavão” indiano  emerge no cenário internacional?
Cabe recordar, a propósito, que, na década de 1980, acreditava-se que o Japão seria o “ganso” líder, em virtude de bem sucedido processo de desenvolvimento industrial voltado para exportações. Na medida em que seus produtos vendidos ao exterior se tornassem mais sofisticados e caros, os bens de menor valor agregado teriam sua manufatura, gradativamente, transferida para outros locais vizinhos, na Coréia do Sul, Cingapura, Hong Kong e Taiwan. Estes viriam a tornar-se novos “gansos” e a formar a tal “revoada “, atrás dos japoneses.
O “dragão” chinês, então, não era considerado capaz de ser incluído nesta formação. As justificativas para a decolagem da China, no final do século passado, passaram a ser encontradas em ampla bibliografia  sobre a questão de “valores asiáticos” e sua influência no processo dos “flying geese”. Segundo esta forma de pensar, o “hierático universo confuciano”, de origem chinesa, estaria permeando o fenômeno de crescimento da Ásia Pacífico, misturando gansos e dragão numa mesma revoada.
A partir do início do atual milênio, no entanto, o pavão indiano, no contexto do “macunaístico caleidoscópico  hindu-muçulmano “, começa a marcar presença neste já eclético bando de aves, todas símbolo de crescimento econômico. Na Índia, contudo, além do pavão, de pouca autonomia de vôo, há, em Mumbai, abutres, corvos e muitas – muitas mesmo – pombas que, com o comportamenteo errático idêntico ao dos demais habitantes do país, não obedecem a preceito confucionista algum. Tornou-se necessário, portanto, criar novo discurso ou tese,  para explicar o aleardeado fenômeno de emergência no Sul da Ásia..
Assim, o ex- editor da revista “Economist”, Bill Emmott,  acaba de publicar o livro “Rivals – How the power struggle between China, India and Japan will shape our next decade”, no qual cria abordagem inovadora para explicar a evolução dos países asiáticos, afirmando que as elites dos mesmos poderiam ser divididas entre “produtivas” e “parasitárias”.
Nessa perspectiva, fica resolvida a questão do enquadramento do pavão  no fenômeno de crescimento regional.  Isto é, na sequência da produtividade das elites dos países dos gansos e do dragão, o animal indiano, agora, se veria livre de sua elite parasita.
Para o observador em Mumbai, no entanto, não caberia adotar – neste universo aviário – a simples postura de um papagaio, no sentido de apenas imitar raciocínios gerados em capitais européias e norte-americanos. A título de exercício de reflexão, buscam-se outros enfoques sobre o ressurgimento atual da influência de civilizações asiáticas, no cenário internacional. Leia mais…

CategoriasArtigos, Ásia-Pacífico Tags:,

LA ESTRATEGIA INTERNACIONAL DE BRASIL: INTERESES Y POLÍTICA, por Mario Rapoport

La reciente visita del presidente Lula a la Argentina reactualiza el debate sobre los factores históricos, políticos, económicos y estratégicos que guían la política exterior del Brasil, cuestión que se planteó en el Primer Encuentro Internacional de Historiadores por el Bicentenario de la Independencia, organizado en Río de Janeiro por la cancillería brasileña hace un par de semanas y cuyas principales conclusiones para el conjunto del continente se sintetizaron en un artículo anterior. El caso brasileño fue expuesto en ese evento por uno de los más eminentes historiadores y expertos en relaciones internacionales de ese país: Amado Luiz Cervo.
Recordemos, ante todo, que en la Argentina de los años ‘90 se había planteado como dogma no perder el “carro” de la globalización, que nos iba a convertir definitivamente en un país del primer mundo. Sólo había que subirse a él siguiendo las políticas que se nos sugería desde las potencias hegemónicas y los organismos internacionales. En Brasil, estas ideas también impactaron, aunque muchos de sus  efectos nocivos resultaron paliados por conductas más pragmáticas. De todos modos, el gobierno de Lula tomó, desde un principio, un rumbo distinto, dando vuelta los términos de la cuestión. El nuevo enfoque considera que una estrategia de desarrollo propia no puede ser impuesta desde afuera. Esta es una trampa oculta en el lema “globalizar la democracia”, que implica democratizar los regimenes políticos internos en las naciones periféricas sin dejar de acatar las reglas de los países ricos y dentro de un orden internacional donde sigue existiendo una profunda desigualdad entre actores y poderes. Leia mais…

O diálogo interdisciplinar em Relações Internacionais: o papel e a contribuição da Antropologia, por Taís Sandrim Julião

As Relações Internacionais enquanto disciplina autônoma adquiriu status acadêmico somente no século XX, datando sua institucionalização de 1919 com a criação da cátedra Woodrow Wilson na Universidade do País de Gales, em Aberyswyth, Grã-Bretanha. Suas origens institucionais estão relacionadas com o término da Primeira Guerra Mundial (1914-1918 ) e os impactos desta no mundo, pois a dimensão do conflito impulsionou a consideração da guerra como um problema social. Assim, firmou-se a convicção da necessidade de um campo de estudo voltado especificamente à análise dessa problemática.
Todavia, na esfera internacional não operavam somente fluxos bélicos e aqueles complementares a sua dinâmica, como os comerciais e políticos. Anterior ao próprio conflito mundial, havia o fluxo de pessoas físicas e jurídicas, como, por exemplo, as imigrações e as corporações de comércio. Assim, podemos dizer que esta tendência de diversificação dos agentes e fenômenos no meio internacional foi acentuada na medida em que componentes importantes da globalização foram sendo difundidos por todo o mundo ao longo da história, com destaque para as tecnologias e as redes de informação, e as empresas multinacionais.
Nesse sentido, as relações internacionais enquanto objeto de estudo passaram por um processo de complexificação, e seu desenvolvimento e estado da arte sugerem que não devemos considerá-la voltada somente à problemática da guerra, como previa a sua institucionalização. A partir da observação de seu desenvolvimento científico e, portanto, analítico e institucionalizado academicamente, podemos argumentar que a agenda de pesquisa e os debates na área acompanharam os principais questionamentos da humanidade, aprofundando cada vez mais a percepção da interação entre o local e o global. Leia mais…

A questão paraguaia II: renegociação antecipada com perspectivas de uma nova abdicação, por José Ribeiro Machado Neto

No próximo dia 15 Fernando Lugo – ex-bispo da Igreja católica indultado pelo papa Bento XVI – assumirá a presidência do nosso vizinho Paraguai, após vitória do seu partido Aliança Patriótica para a Mudança (APC), nas eleições de abril passado, com a margem de 40,8% sobre os demais candidatos. Por extensão, a vitória de Lugo pode e deve ser considerada, sem qualquer sombra de dúvida, como um êxito da democracia latino-americana sobre o que ainda pode existir de espectros ditatoriais, que tanto maltrataram a América do Sul nos anos 1970-1980, tentando toldar com contumaz violência, o pensar das novas gerações.
A chegada de Lugo à presidência do Paraguai aumenta para sete o número de presidentes sul-americanos advindos da esquerda: Bolívia, Brasil, Chile, Equador, Venezuela e Uruguai. Apesar de democráticas e pacíficas, as eleições tornaram-se intrigantes para Washington até então contemplativa, mas que deverá, em curto prazo, alterar suas estratégias geopolíticas para a América do Sul, que não devem ser parecidas ou próximas das que foram largamente utilizadas durante a vigência de regimes militares no Cone Sul.
O êxito guarani, em tempo real, entretanto, dado à dimensão geoconômica paraguaia, poderá exigir dos EUA maior atenção. Essa, principalmente, no que diz respeito à transferência de capitais e de tecnologia para alçar um maior patamar no espaço do MERCOSUL, além de procurar manter o cenário político bem próximo do centro, longe de privatizações, de nacionalizações e de tumultos cambiais, que na maioria das vezes, provoca socialização de perdas com acirramento ideológico. Leia mais…