Meridiano 47

Boletim de Análise de Conjuntura em Relações Internacionais – ISSN 1518-1219

A Colômbia e o principiante, por José Flávio Sombra Saraiva

A Colômbia iluminou as manchetes de quase todos os meios de comunicação do mundo na noite de quarta-feira. É como se uma nova era se iniciasse na história latino-americana. A barbárie pareceria ter sido vencida pela mão delicada da civilidade. A democracia latino-americana, tão aviltada por instabilidades e resquícios da Guerra Fria, caminharia para sua maturidade postergada. O fracasso do seqüestro como meio de pressão política estaria sepultado ante discurso sereno e pacífico da senadora Ingrid Betancourt.
A opinião pública internacional respiraria aliviada. Libertou-se a refém mais famosa do mundo, mulher, família tradicional, política e ponte entre a Europa e um país do extremo Ocidente. Quase tudo que se viu nas notas apressadas, mas verdadeiramente tocadas pela boa surpresa, foi a imagem de um divisor de águas entre a liberdade de pessoa com grande visibilidade internacional e o horror da lógica da guerrilha exaurida. O sol de Bogotá amanheceu brilhante na manhã de quinta-feira.
O calor do momento anima interpretações as mais diversas acerca do resgate espetacular da senadora Ingrid Betancourt de seu cativeiro. Os críticos dos chamados “corredores humanitários” que vinham sendo construídos por grupos internacionais e alguns governantes da região, liderados por líderes políticos de fora, como o presidente da França, logo celebraram a manu militari empreendida pelo governante colombiano. Vitória militar de Uribe e derrota política de Chávez, apressaram-se alguns analistas.
Outros insistiram que, sem a gradual mudança, calculada e estudada pelos apoios sul-americanos dos governos progressistas de esquerda, não teria sido possível libertar Betancourt. Houve ainda aqueles que viram na libertação da refém a mão poderosa da hegemonia norte-americana, a ocupar espaço de inteligência militar no coração de área sensível à América do Sul: seu patrimônio amazônico. E houve ainda aqueles que alinharam as crescentes perdas das Farc e dos demais grupos paramilitares colombianos – exauridas pelos meios econômicos limitados, crises de lealdade, reversão da opinião pública internacional e morte de seus líderes históricos – à idéia de término da guerrilha como um meio de ação política.
Todas essas linhas de interpretação possuem alguma verdade, mas não toda a verdade. Há ainda um campo a ser desbastado pelo tempo. Nos próximos meses teremos uma impressão menos apaixonada dos fatos. Enumero três delas.
Em primeiro lugar, a senadora que sai do cativeiro deixa para trás mais de 700 prisioneiros, em circunstâncias que não se sabe exatamente quais são, mas não são certamente as que ela teve, tratada como foi como moeda importante de troca nas negociações entre os atores interessados na sua libertação, de Uribe a Chávez, passando por Sarkozy, para citar apenas alguns. Salva a grande personagem, o que se fará pelos coadjuvantes? Essa pergunta deve seguir o analista sério da questão colombiana. Continuará a via militar a melhor solução? Há espaço para manobra conciliatória ou assistiremos ao recrudescimento e a retaliação de guerrilha desesperada e sem controle? São questões sérias que necessitam ser urgentemente tratadas. Afinal, são vidas humanas da mesma importância da ilustre senadora.
Em segundo lugar, está a incógnita política que representa a própria senadora, candidata natural à presidência da Colômbia, como já o fez. Seu discurso serene é de chamar a atenção. Ainda mais seu agradecimento ao presidente Uribe, de quem foi crítica feroz na eleição para a qual não pode chegar às condições de concorrer. Qual será a opção política da potencial candidata? E como fica aquele que tem mais de quatro colombianos em cinco nas mãos da legitimidade política de suas ações contra a guerrilha?
Em terceiro lugar, e por último, um problema relevante para o contexto sul-americano. Se os colombianos preferem uma Bogotá policiada e militarizada, com todos os custos de cerceamento de liberdades civis e de tensões inerentes a esse contexto de controle da caserna sobre a vida cidadã, o que será a democracia colombiana quando a fase mais dura do conflito findar? Se o conflito está findando, como anuncia o presidente Álvaro Uribe, e se a senadora volta aos palcos políticos com sua versão pacifista do discurso político que todos assistimos, quais serão as opções reais do eleitor colombiano para o amadurecimento do Estado de direito na Colômbia?
Afinal, convenhamos, a Colômbia não é para principiantes. E muitos analistas apressados do hoje terão que se curvar às novas evidências políticas e culturais da difícil construção da cidadania e da tranqüilidade política na América Latina. O triunfalismo do momento pode ceder às visões do amanhã, menos luminosas que os dias atuais em Bogotá.

José Flávio Sombra Saraiva é Professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília – iREL-UnB e diretor-geral do Instituto Brasileiro de Relações Internacionais – IBRI (fsaraiva@unb.br).

Written by Equipe de Colaboradores

04/07/2008 às 08:00

Publicado em América do Sul, Artigos

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