McCain: ruptura ou continuidade da gestão Bush?, por Virgílio Arraes

Definido como o candidato à Presidência pelo Partido Republicano, o Senador John McCain encontra-se diante de um cenário eleitoralmente adverso, ao ter de superar o legado negativo do Presidente George Bush, materializado já há muito em baixos índices de aprovação, principalmente em seu último ano de gestão.
Internamente, há o espectro da recessão que se faz mais e mais presente, estimulada pelos reajustes vigorosos do preço do petróleo; externamente, há a condução desastrosa de duas frentes de batalha na área médio-oriental e cercanias. Em face de tamanhas adversidades, qual o melhor caminho a trilhar perante o eleitorado norte-americano?
À primeira vista, os republicanos deveriam procurar desembaraçar-se do ideário neoconservador que, aplicado à política exterior, se revelou funesto. Entrementes, é possível delinear a inclinação do grupo de McCain pelas linhas gerais formuladas e mal aplicadas no presente mandato. Anteriormente ao desencadear das duas guerras, o seu posicionamento era favorável ao neoconservadorismo.
Naquele momento, isto não lhe fazia destoar da maior parte dos republicanos. Contudo, decorridos quase dois mandatos, é um aspecto preocupante desejar a manutenção de tais posicionamentos diante de tanto desgaste. No plano interno, o aspecto mais preocupante é a interpretação restritiva da Quarta Emenda, em nome do combate ao terror. Além do mais, não se pode esquecer do emprego de prisões reservadas por tempo indeterminado e da utilização de técnicas de tortura para obtenção de informações.
Nesse sentido, os republicanos neoconservadores, se McCain for vitorioso, necessitariam de apenas mais um voto para alterar o perfil do Supremo Tribunal com o fito de reconhecerem-se mais poderes para a Presidência. Dos nove ministros, quatro alinham-se no lado mais conservador: Samuel Alito, Antonin Scalia, Clarence Thomas e John Roberts, atual presidente da Corte.
Nas primeiras semanas do pós-11 de setembro, houve um consenso na comunidade internacional em torno da eliminação de locais onde se abrigassem grupos radicais – defensores do emprego de armas de destruição em massa ou de ataques indistintos a alvo civis, por exemplo – como no caso dos talibãs no Afeganistão, desde que autorizados pelo Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas.
No entanto, isto aconteceu apenas com o Afeganistão. No caso do Iraque, sem o eventual aval onusiano, o internacionalismo da administração Bush resumiu-se à idéia de uma guerra mais que preventiva, visto que o adversário poderia ter sido qualquer país encarado como uma ameaça potencial à segurança do país. Destarte, o direito internacional foi posto em plano secundário.
McCain não diverge das linhas gerais da política externa atual, dado que se posiciona entre os que advogam o direito ‘natural’ de os Estados Unidos defenderem, sem restrições, os paises do eixo transatlântico. Em sua visão, cabe aos norte-americanos – dado o seu poderio – a responsabilidade de agir, sem tergiversar, a fim de que outro ataque terrorista não aconteça mais.
Nesse sentido, a atuação dos organismos internacionais é vista como morosa, em decorrência de seus trâmites burocráticos, o que então poderia prejudicar – mesmo involuntariamente – a segurança global. Assim, países subscritores do terrorismo e da posse de armas de destruição em massa encaixar-se-iam, de forma automática, no estado de guerra, o que justificaria, por sua vez, uma pronta ação norte-americana.
Além das preocupações com a segurança mundial, a liberdade também está no primeiro plano, de sorte que o unilateralismo estadunidense se fundamenta em um imperativo moral, ao encarregar-se de auxiliar a implementação de regimes, em tese, democráticos. Como conseqüência, a paz global se fortaleceria.
Quanto à presença em solo iraquiano, McCain não apresentaria, por conseguinte, ao eleitorado mea culpa algum, visto que, desde o início de 2002, subscrita a guerra ao terror. Naquele período, ele já havia apoiado a afirmação de que a ditadura de Saddam Hussein teria armas de destruição em massa e ajudaria grupos terroristas da estirpe da Al-Qaida, ou seja, fundamentalistas. Na realidade, em face do secularismo daquele regime autoritário, tais grupos repudiavam-na.
A justificativa de McCain para não reconhecer o apoio equivocado ampara-se não no erro da guerra em si, porém no de sua execução. A fim de corrigi-lo, haveria a necessidade, portanto, de enviar mais tropas para as frentes de combate. Como os Estados Unidos não têm mais condições de arcar solitariamente com tal fardo, a idéia é, no futuro, agregar outras potências com o objetivo de compor uma coligação democrática.
Ela seria responsável pela manutenção da estabilidade mundial. No entanto, somente entraria em cena, caso o Conselho de Segurança das Nações Unidas se recusasse a atuar. De certa maneira, seria a revivescência – ao mesmo tempo que formalização – da Coligação da Vontade, empregada para iniciar a segunda Guerra do Golfo. A formação desta aliança seria o primeiro passo para reformular o sistema de segurança coletiva, moldado ainda no final da Segunda Guerra Mundial.

Virgílio Arraes é Professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília – iREL-UnB (arraes@unb.br).

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