Veteranos nos Estados Unidos: McCain ou Obama?, por Virgílio Arraes

A candidatura do Senador John McCain, já definida pelo Partido Republicano, traz consigo um aspecto singular em campanhas presidenciais. Em sendo um condecorado veterano da Guerra do Vietnã – período em que pertenceu como piloto à Marinha – qual o tipo de perspectiva que ele poderia passar aos milhares e milhares de feridos, alguns dos quais gravemente, nas inúmeras confrontações de que têm participado os Estados Unidos nas últimas décadas e aos próprios militares da ativa?
Com relação ao primeiro ponto, a despeito de McCain ter sido filho do Almirante-Chefe da Esquadra do Pacífico no período do conflito vietnamita, ele não aceitou a sua libertação em detrimento da manutenção da catividade de outros muitos militares. Como conseqüência, o futuro postulante à Casa Branca seria submetido constantemente a torturas, tendo por resultado lamentavelmente seqüelas físicas permanentes.
Desta forma, um possível presidente – submetido profundamente em sua juventude ao horror do cotidiano de uma cruenta peleja – teria mais condições de melhorar o serviço médico atualmente oferecido aos combatentes dele necessitados e ser ele mesmo um exemplo de destaque contra toda prática de tortura, independentemente se a favor ou não de seu país. 
Em tese, o candidato republicano estaria habilitado para implementar melhorias administrativas no atendimento dos antigos militares; entrementes, na prática, a sua atuação na labuta senatorial nos últimos anos é desanimadora para os veteranos feridos não somente na Guerra do Golfo como na do Afeganistão.
Não obstante a sua condição de lesionado, ele recusa-se, desde 2004, a votar favoravelmente em emendas concedentes de mais verbas para tratamento médico de reformados – notadamente para os de renda anual abaixo de 28 mil dólares – sem dependentes.
Uma das razões possíveis relacionar-se-ia com a valorização da disciplina fiscal, elemento que tradicionalmente não motiva muito as últimas administrações republicanas, de forma geral, a despeito de sua importância na política externa.
A justificativa para o postulante republicano portar-se assim deriva da avaliação de que a privatização atenderia mais adequadamente os ex-combatentes, ao ofertar-lhes a possibilidade de uma gama maior no momento de escolha de um tratamento. No entanto, a realidade mostrou-se adversa a tal modelo: em algumas cidades de Wisconsin, por exemplo, a transferência ao setor privado durou apenas poucos meses.
Sob a alegação de insuficiência de recursos para custear o atendimento, as empresas conveniadas desistiram e proporcionaram aos reformados um involuntário hiato de algumas semanas até um encaminhamento adequado dos problemas.
Se os veteranos podem prejudicar-se com relação ao atendimento hospitalar, podem muitos também com vistas ao seu próprio emprego, à medida que vários dos ex-combatentes são empregados do próprio Departamento de Veteranos, com a finalidade de executar tarefas rotineiras como serviços gerais, por exemplo.
Se a perspectiva não é encorajadora para os reformados, qual seria a dos militares da ativa? Nesse sentido, ao ser incisivamente questionado pelo Senador Obama, McCain responder-lhe-ia de maneira evasiva, ao afirmar que o democrata não havia sido militar como se tal status o desabilitasse de avaliar ou propor políticas para a área.
Além do mais, Obama mal havia chegado à adolescência para alistar-se durante a Guerra do Vietnã, ainda que voluntariamente. Depois dela, os Estados Unidos não se envolveriam diretamente em conflitos de porte por quase uma década e meia.
Diante do comportamento do Senador McCain, Obama aproveita-se politicamente da ausência do espírito de corpo do republicano para reforçar a sua campanha perante os eleitores de origem castrense, ao assegurar-lhes ser favorável à concessão de subsídios para que possam adquirir grau universitário.
Com tal posicionamento, o futuro candidato democrata, visto que a Senadora Clinton não dispõe mais de oportunidade para superá-lo em número de delegados, ruma para gradativamente superar a visão de que, por ser falto de experiência militar, não teria condições de relacionar-se com as forças armadas com a mesma proximidade política de McCain ou de Clinton.

Virgílio Arraes é Professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília – iREL-UnB (arraes@unb.br).

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