Meridiano 47

Boletim de Análise de Conjuntura em Relações Internacionais

China e Estados Unidos: rivalidades geopolíticas e a questão militar

A China é, seguramente, a melhor candidata a superpotência no século XXI, superando, ou, ao menos, igualando o poder dos Estados Unidos. Ela tem uma base territorial e demográfica imensa, dispõe de armas nucleares e forças militares substanciais, sua economia cresce em ritmo acelerado e seu poder cultural e diplomático é grande, com assento, inclusive, no Conselho de Segurança da ONU. A China enfrenta, claro, imensos desafios, mas, entre os potenciais candidatos a potência no novo milênio (União Européia, Rússia, Índia, Japão, Brasil) é a que enfrenta os menores constrangimentos e a que tem o maior potencial.
A primeira grande pergunta, claro, é se a China conseguirá manter seu crescimento econômico acelerado sem uma ruptura do seu sistema político e da estabilidade interna. Se o conseguir, o potencial seguramente se tornará poder efetivo. Se não, as questões que hoje se colocam se tornam inúteis e o país pode mergulhar na instabilidade e até no caos.
Agora, supondo que a China continue em crescimento, a questão imediata que surge é como será o seu relacionamento com a atual superpotência, os Estados Unidos.  Guerra ou paz, acomodação ou conflito? Esta é realmente a grande pergunta, que muita gente tenta responder.
É claro que qualquer pessoa que tente vislumbrar como será o sistema internacional do século XXI e o papel dos Estados Unidos e da China no mesmo trabalhará no terreno da indeterminação e, portanto, pode apenas verificar as hipóteses e possibilidades, sem, claro, chegar a conclusões definitivas. Mesmo assim, já é possível pensar alguns cenários para a relação entre os dois “grandes” neste novo século.
Uma hipótese muito comentada na mídia é a de que o mundo do século XXI verá a superação do sistema de Estados-nação que vigora há séculos. Segundo este raciocínio, Estados nacionais como o americano, o chinês ou o brasileiro não significarão mais nada e, portanto, qualquer projeção das grandes potências do futuro seria um exercício sem sentido.
Não resta dúvida de que o sistema de poder internacional do século XXI não será o do XVIII ou do XX e que as forças transnacionais e não estatais serão cada vez mais importantes na sua formatação. Mas não creio ser possível vislumbrar, ainda, um mundo em que os Estados percam completamente as suas funções, especialmente no campo das relações internacionais, pelo que esta possibilidade é, no mínimo, exagerada.
A hipótese mais provável, assim, é a de que estamos entrando num mundo muito diverso do anterior. Neste, os Estados-nação continuarão a ser os atores centrais do sistema internacional, mas atuando, cada vez mais, em conjunto com outras forças e organizações. Ao mesmo tempo, Estados-nação continuarão a ascender e outros decairão em termos de poder, pelo que haverá um inevitável reequilibro de forças dentro do mundo. Os Estados Unidos continuarão a ser a maior potência, mas a União Européia, o Japão, a Índia, a Rússia e, acima de todos, a China, terão, provavelmente, cada vez mais poder e influência no mundo, com Brasil e Indonésia, provavelmente, seguindo atrás.
Claro que este crescimento de poder será relativo conforme a área em que pensamos. Em termos militares, China e Rússia tendem a se tornar mais fortes, enquanto Japão e União Européia serão, como já são, grandes potências econômicas e tecnológicas, ainda que, provavelmente, em declínio demográfico e com força militar reduzida. Mas que haverá um aumento do poder relativo destes países, parece uma aposta razoável. Também parece razoável, neste contexto, a conclusão de que o eixo central da geopolítica mundial neste século será formado a partir das relações sino-americanas, que oscilarão, provavelmente, entre cooperação e conflito, sendo a grande pergunta, como já mencionado, se o conflito poderia escalar para a guerra.
Numa análise de curto prazo, a hipótese de guerra total não se sustenta, dada a dependência econômica mútua e a força militar limitada da China. Uma crise em Taiwan poderia, talvez, degenerar num conflito armado e a decisão de entrar em guerra pode, muitas vezes, sair do racional e ir para o emocional, o conjuntural. Para a liderança chinesa, contudo, uma guerra com os Estados Unidos significaria perda do seu maior mercado, a transformação de sua reserva de um trilhão de dólares em papel sem valor e uma derrota certa. Assim, é difícil acreditar que ela possa ocorrer.
Em longo prazo, contudo, quando e se a China diversificar seus mercados e fontes de capitais e começar a disputar matérias primas e energia pelo mundo com ainda mais vigor do que hoje, a hipótese de recurso às armas não é de se desconsiderar. Contudo, para que esta possibilidade se torne real, torna-se imperativo examinar o gráfico das capacidades militares chinesas.
A China, hoje, é uma das principais potências militares do mundo, com milhões de homens em armas. Apesar do grosso do seu material ser ainda obsoleto, as forças armadas chinesas estão adquirindo grandes quantidades de armamento moderno da Rússia e procurando melhorar o treinamento das tropas. Ano após ano, o orçamento militar chinês aumenta (já sendo o segundo do mundo, se incluirmos os prováveis gastos camuflados) e a qualidade das suas forças armadas também. Os militares chineses ainda não podem competir com as forças dos Estados Unidos e muito menos projetar poder muito longe de suas fronteiras. Mas, em caso de uma crise séria, poderiam enfrentar os americanos nas vizinhanças de Taiwan, com alto potencial de danos.
Em resumo, há um claro processo de aperfeiçoamento e crescimento das capacidades militares chinesas. As forças armadas chinesas já são perfeitamente capazes de defender seu país de uma, ainda que improvável, invasão do exterior e podem projetar poder nos arredores, especialmente frente a Taiwan. No entanto, elas ainda têm deficiências imensas e não são uma ameaça à supremacia militar americana no mundo.
A questão que fica é até onde irão as ambições militares chinesas. Se a modernização econômica chinesa continuar e o ritmo de crescimento dos gastos militares se mantiver, a China logo terá uma capacidade muito maior de intervir nos assuntos asiáticos. Isso, provavelmente, já deixará o Pentágono e alguns países vizinhos preocupados, o que afetará, provavelmente, a geopolítica internacional e, talvez, as relações entre Pequim e Washington.
O grande momento de decisão, contudo, será quando e se a China tomar a decisão de construir uma grande marinha oceânica, com forças tarefa de porta-aviões e toda a parafernália necessária para projetar poder em outros continentes. Para os Estados Unidos, enquanto potência naval e que baseiam o seu poder no domínio dos oceanos, este seria o sinal mais do que claro de que a China deseja uma posição de superpotência mundial também em termos militares e sinais vermelhos seriam acionados em Washington. Quando e se a China tomasse tal decisão, a hipótese de guerra se tornaria mais palpável.
Desde os anos 1980, na verdade, os chineses estão fazendo experiências com porta-aviões, tendo adquirido um antigo da Austrália e três da antiga União Soviética. Foram todos ou desmontados ou transformados em atração turística, mas, antes, os chineses os estudaram com cuidado. A Marinha chinesa tem, hoje, planos de adquirir e construir porta-aviões e uma marinha oceânica, mas são ainda embrionários e nem arranham a superioridade americana. A China só terá a capacidade e o interesse real nisto em algumas décadas, mas uma decisão neste sentido poderia muito bem levar as relações entre os dois gigantes a um impasse e, talvez, à guerra.
É claro que esta é apenas uma possibilidade. Mas há um precedente histórico interessante. A Inglaterra e a Alemanha tinham vastos laços econômicos e pouca hostilidade entre si até finais do século XIX. Foi quando o governo alemão decidiu construir uma imensa força de couraçados e uma marinha oceânica, de forma a dar à Alemanha o status de potência global e questionar o domínio inglês nos oceanos. A resposta britânica foi imediata, com aumento dos seus próprios gastos navais e aproximação da França e da Rússia para conter a ameaça alemã, o que, no limite, levou a duas guerras mundiais. O mesmo poderia se repetir entre China e EUA.
Assim, não tenho, claro, como saber em que sentido evoluirão as relações entre os dois gigantes no futuro. Mas acredito que, enquanto a China mantiver em nível modesto as suas ambições militares e aceitar a supremacia americana, elas tendem a caminhar mais para a complementação e o acordo. Se, contudo, a China resolver se dotar de um instrumental militar adequado ao seu novo status e, especialmente, tentar questionar o domínio dos EUA nos mares, o potencial para conflito e guerra se torna maior. Talvez seja aos estaleiros que devamos dar atenção se quisermos saber para onde caminha o mundo no século XXI.

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Abril 16, 2008 - Escrito por João Fábio Bertonha | Artigos, Política Externa, Política Internacional, Ásia-Pacífico | | Não Há Comentários

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