China e Índia – “Chindia”: vasto espaço para a convivência entre diferentes culturas, por Paulo Antônio Pereira Pinto

Até recentemente, a maioria da leitura disponível sobre China e Índia visava a interpretar um ou outro país a público ocidental. Ademais, os parâmetros de comparação para a RPC eram, quase sempre, o Japão, a Coréia do Sul, ou mesmo Taiwan. Os indianos eram, nesses estudos, associados, inevitavelmente, aos paquistaneses.
No momento, a China parece “descolar-se” do resto da Ásia Oriental, que continua a ser vista com atenção, por sua dinâmcia própria. O Paquistão, de sua parte, tornou-se merecedor, s.m.j., de referências a processos em curso no Afeganistão.
China e Índia são, hoje, o foco de comparações inesgotáveis, para os leitores ocidentais, seja a respeito de seus respectivos processos de desenvolvimento econômico, seja quanto à inserção de cada país no cenário internacional, inclusive com o emprego de “soft power”.
Para o observador em Mumbai, no entanto, o mais interessante tem sido o esforço de analistas indianos para explicar, ao seu próprio país, a “China”.
Isto porque, como se sabe, o intenso intercâmbio comercial, a “cross-fertilization” cultural e mesmo a mistura étnica que prevaleciam, havia séculos, entre as duas civilizações, foram suspensos, a partir de 1962, com a guerra fronteiriça entre os dois países.
Parte-se do princípio, nessa perspectiva, de que atual geração indiana, após mais de quarenta anos de distanciamento, procura interpretar o comportamento chinês, no âmbito das condicionantes de sua própria cultura. Daí, citam, por exemplo, a “sacudida de cabeça hindu, à esquerda e à direita” – que aqui significa “ser a verdade sempre contextual e que, portanto, a resposta a cada pergunta deve ser interpretada como afirmativa ou negativa, dependendo da conveniência dos interlocutores”.
Da mesma forma, é explicado ao público local que tamanha é a necessidade sínica de “não perder face” que um “sim” dito de forma muito enfática pode, disfarçadamente, significar um “não”. Isto é, um chinês busca sempre não ser exposto ao constrangimento de, através de uma negativa, aparecer incapaz de satisfazer ao pedido ou responder a pergunta da outra parte. Assim, haverá sempre um “sim”, como resposta, mesmo que seu significado seja o de um “talvez”ou um “não”.
Os receituários ora disponíveis, para que a China seja melhor entendida na Índia, procuram, também, esclarecer as diferenças entre os dois países, no campo espiritual.
É, então, explicado aos indianos que os chineses contam, em sua mitologia, com centenas de “deuses” e “deusas”, além de seres sobrenaturais, como o dragão. Não haveria, segundo o ponto-de-vista local, o conceito de um “Ser Divino Todo Poderoso” ou “Deus”. Conflitos relacionados com a reencarnação ou renascimento – encontrados no Hinduísmo – ou com o pecado – vigentes no Catolicismo, Judaísmo e Islã – estariam ausentes entre os chineses.
Enquanto isso, os indianos, seguidores do Hinduísmo ou Bramanismo, com seus “deuses” maiores ou menores, seus templos e cerimoniais, desenvolveram sua espiritualidade, em torno da crença no “Bhrama”, que é a unidade. Assim, cada “alma” é uma parte destacada desta unidade, que só se reencontra quando volta a se fundir no “todo”. Daí, a perene espera pelo retorno ao “Universal”.
Os chineses, de sua parte, desfrutariam de uma civilização extremamente prática, onde interessaria o “aqui” e o “agora”. A ética social prevaleceria sobre questões espirituais. Tal realidade teria três origens: o Taoismo, o Budismo e o Confucionismo.
O Taoismo ditaria o perfil místico da China. Seu princípio básico é o de que o mundo, como um todo, funciona em torno de dois polos, que se expandem alternadamente, enquanto representam limites recíprocos. Trata-se do “Yang” e do “Yin”. O yang é tudo o que for masculino, quente, agudo, iluminado, pesado e seco; o yin é o feminino, frio, macio, escuro, leve e molhado. A desarmonia entre os dois extremos provoca desordens e doenças.
O Taoismo misturou-se com crenças e práticas tribais, dando origem ao culto de numerosos “espíritos” e “entidades”, associados à água, fogo, vento, chuva, rios, arroz, portões, paredes, entre outros. A maioria das entidades objeto de devoção dos chineses são ancestrais, guerreiros, reis, dignatários e sábios. Por exemplo, os “Oito Imortais” foram pessoas que, através da realização de “obras dignas de reconhecimento e vidas plenas de alegrias” foram agraciados com o “pêssego da vida eterna”, o que os tornou imortais. Suas imagens ” guiam e ajudam os fiéis”, em momentos de necessidade.
Em virtude do espírito prático da mentalidade chinesa, o Budismo chegou ao país com sua “Escola Mahayana”, cujo objetivo principal seria não o de tornar-se um Buda, mas, sim, o de, com persistente esforço individual, invocar a intervenção divina – do Buda – para que as dificuldades do mundo material se tornem mais suportáveis.
Segundo seus adeptos, haveria diversos níveis de “paraísos” e de “infernos”, com diferentes recompensas e punições. Os que demonstrassem comportamento mais correto seriam contemplados com a entrada no “paraíso mais elevado”, onde conviveriam com o “Imperador de Jade”, que, segundo a referida crença, seria o que mais próximo haveria da noção de um “Deus”.
A “corte divina” do Imperador de Jade seria idêntica a uma versão terrestre, com um exército, burocracia, família real e “parasitas de plantão”- estes em busca de favores. Seu julgamento, no entanto, é justo e sem caprichos: o bem é recompensado e o mal punido.
Por ocasião das celebrações do Ano Novo Lunar, os fiéis chineses queimam dinheiro de papel, como símbolo de pagamento para que “deuses que habitam suas casas” viagem até à referida corte do Imperador de Jade e relatem favoravelmente sobre as famílias que os hospedam. Outro recurso é o de oferecer doces ao “deus da cozinha”, para adoçar-lhe os lábios e permitir um discurso favorável àquela entidade maior.
Tais explicações, na Índia, fazem a China parecer bastante utilitária e simplista, preocupada mais com a “face” dos que seguem o ramo prevalecente do Budismo, enquanto, aqui, os hinduístas privilegiam e convivem com complicado sistema de castas e formas de vida – inclusive na de animais – que podem se suceder, em reencarnações futuras.
Cabe ressaltar que, em momento algum, as diferenças assinaladas – para o observador local – procuram identificar obstáculos a um possível renovado bom entendimento entre as duas civilizações. Pelo contrário, buscam-se, sim, coincidências herdadas por interlocuções, durante séculos, de diferentes formas, no campo econômico, político e cultural.
Há especialistas, a propósito, que comparam a “indianização” da China – com a sua “importação” do Budismo do país vizinho – à cristinanização da Europa.
Para atender ao já mencionado interesse da nova geração indiana com respeito ao antigo “Império do Centro”, a imprensa local tem ressaltado a crescente visita de cientistas indianos da área de informática à cidade de Hangzhou, na RPC, e a vinda de especialistas chineses em “software” a Bangalore, na Índia. Relaciona-se, então, este crecente intercâmbio techno-industrial com a recíproca criação de centros de estudos do Budismo, em Universidades dos dois paises, como consolidação de “cross fertilization” cultural histórica.
Isto é, segundo o entendimento do observador em Mumbai, parece ser fortalecido o consenso de que a mesma facilidade de troca de idéias e maneiras de produção, que permitiu que o Budismo penetrasse na China – como assinalado em parágrafo acima – os habitantes dos dois países teriam hoje, para se articularem, a partir de valores em comum, criando um vasto espaço para a convivência entre suas diferentes culturas.
Trata-se de conclusão importante para os que, até recentemente, acreditavam que India e China viriam a importar modelos e formas de comportamento do “Ocidente”, na medida em que se consolidam, como potências econômicas emergentes.
Pode ser que, na prática, entre os dois países, forme-se um vasto espaço cultural, a facilitar a convivência entre diferentes culturas. Esta “Chindia” poderia proporcionar e priorizar o ressurgimento de formas tradicionais de relacionamento entre diferentes povos, que conviviam entre e através de suas fronteiras.
Para tanto é necessário, ainda, que sejam superadas divergências entre Nova Delhi e Pequim, principalmente no que diz respeito a suas fronteiras.

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